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quinta-feira, julho 05, 2012

Talvez eu e meu corpo formemos uma conspiração pelas costas de minha própria mente.

Fragmentos

Dizes que uma boa causa justifica tudo, inclusive a guerra? Contesto: uma boa guerra é que justifica qualquer causa. 

Necessário se faz, quando tratamos com os homens, recorrer a uma bondosa dissimulação, como se não pudéssemos penetrar os móveis do seu procedimento. 

O verme pisado encolhe-se. É a sua astúcia. Diminui, asam, a probabilidade de ser novamente pisado. Na língua da moral, chama-se isto humildade. 

Se eu arrancasse os vossos véus, os vossos trapos, as vossas cores e os vossos gestos, de vós todos, restaria apenas c necessário para assustar pássaros. 

Já dei tudo. Nada me resta de tudo quanto tive, exceto tu, esperança! 

Se queres elevar-te, exercita a arte de esquecer. 

Diante da necessidade, todo idealismo é ilusão. 

Diante do pouco prazer que basta à maioria dos homens para acharem a vida agradável, como lhes admiro a modéstia!

Amar e desaparecer: eis coisas que andam juntas desde a eternidade. Querer amar é também estar pronto para morrer. 


Todo homem possui sua finalidade particular, de modo que mil direções correm, umas ao lado das outras, em linhas curvas e retas; elas se entrecruzam, se favorecem ou se entravam, avançam ou recuam e assumem desse modo, umas com relação às outras, o caráter do acaso, tornando assim impossível, abstração feita das influências dos fenômenos da natureza, a demonstração de uma finalidade decisiva que abrangeria nos acontecimentos a humanidade inteira. — Nietzsche, Da utilidade e do inconveniente da História para a vida

O choque, a ação de um átomo sobre o outro, pressupõe também a sensação. Algo de estranho em si não pode agir sobre o outro. — Nietzsche, O livro do filósofo

Só se escolhe a dialética quando não se tem mais nenhuma saída. — Nietzsche, O crepúsculo dos ídolos


O que alguém é começa a se revelar quando o seu talento declina – quando ele cessa de mostrar o quanto pode. O talento é também um ornamento; um ornamento é também um esconderijo. — Nietzsche


O homem só muito lentamente descobre como o mundo é infinitamente complicado. Primeiramente ele o imagina totalmente simples, tão superficial quanto ele próprio. — Nietzsche, O livro do filósofo

O homem bom também quer ser verdadeiro e crê na verdade de todas as coisas. Não só da sociedade, mas também do mundo… De fato, por que razão o mundo deveria enganá-lo? — Nietzsche, O livro do filósofo

A coragem mata também a vertigem à beira de abismos! E onde estará o homem senão à beira de abismos? Mesmo olhar, não será olhar abismos? (…) Mas a coragem, a coragem que ataca é o melhor dos matadores, mata a própria morte pois diz: “ISTO é a vida? Pois então, outra vez! — Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

A mesma palavra amor significa com efeito duas coisas diferentes para o homem e para a mulher. O que a mulher entende por amor é bastante claro: não é apenas dedicação, é dom total de corpo e alma, sem restrição, sem nenhuma atenção para o que quer que seja. É a ausência de condição que faz de seu amor uma profissão de fé, a única que ela tem. — Nietzsche, A Gaia Ciência

O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem, é que ele é um passare um sucumbir. — Assim Falou Zaratustra

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo usom parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias. — Nietzsche, Sobre Verdade e Mentira num Sentido Extra-Moral

Vós olhais para cima, quando ansiais por elevação. E eu olho para baixo porque estou elevado. Quem é, entre vós, aquele que pode ao mesmo tempo rir-se e estar nas alturas? Quem sobe às mais altas montanhas ri-se de todas as tristezas, lúdicas e graves. — Nietzsche, Assim Falou Zaratustra 

Desejo eu aos que me interessam, o sofrimento, a solidão, a enfermidade, as perseguições, o opróbrio. Desejo que conheçam o profundo menosprezo de si próprios, o tormento da sua desconfiança, a angústia da derrota. E não os lastimo, pois que lhes desejo a coisa única capaz de demonstrar se valem ou não: a resistência. — Nietzsche
"Como? E se o contrário representasse a verdade? Como? E se o 'bom' encerrasse em si um sintoma de retrocesso, um perigo, uma sedução enganosa, um veneno, um narcótico que desse a vida ao presente em detrimento do futuro? Talvez de maneira mais confortável menos perigosa, mas também mais apertada, mais baixa? De tal modo que fosse culpa da moral não ter chegado o tipo homem ao mais alto grau do poder e do esplendor? E de modo que entre todos os perigos fosse a moral o perigo por excelência?"

Nietzsche, no prefácio de A Genealogia da Moral.

quarta-feira, julho 04, 2012

"It is absolutely impossible for a subject to see or have insight into something while leaving itself out of the picture, so impossible that knowing and being are the most opposite of all spheres."
“Take care that when you dispose of the demons, you do not dispose of what is best in you.”


domingo, agosto 31, 2008

Nieztsche

"Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos? Com razão alguém disse: "onde estiver teu tesouro, estará também teu coração". Nosso tesouro está onde estão as colméias do nosso conhecimento. Estamos sempre a caminho delas, sendo por natureza criaturas aladas e coletoras do mel do espírito, tendo no coração apenas um propósito - levar algo "para casa". Quanto ao mais da vida, as chamadas "vivências", qual de nós pode levá-las a sério? Ou ter tempo para elas? Nas experiências presentes, receio, estamos sempre "ausentes": nelas não temos nosso coração - para elas não temos ouvidos... Pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender e a nós se aplicará para sempre a frase: "Cada qual é o mais distante de si mesmo?"
"Só cabe aos que me reprovam refletir um pouco e depois pedir desculpas a si mesmos. Não preciso de uma palavra para a minha defesa".

" A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más."

terça-feira, agosto 12, 2008

Friedrich Nietzsche

(...) Ainda hoje te atormenta a multidão; ainda conservas o teu valor e as tuas esperanças todas.
Um dia, contudo, te fatigará a soledade, se abaterá o teu orgulho e cerrarás os dentes.
Um dia clamarás: “Estou só!”
Chegará um dia em que já não vejas a tua altura, e em que a tua baixeza esteja demasiado perto de ti. A tua própria sublimidade te amendrontará como um fantasma.
Um dia gritarás: “Tudo é falso!”
Há sentimentos que querem matar o solitário. Não o conseguem? Pois eles que morram! Mas, serás tu capaz de ser assassino?
Meu irmão, já conheces a palavra “desprezo”? E o tormento da justiça de ser justo para com os que te menosprezam?
Obrigas muitos a mudarem de opinião a teu respeito; por isso te consideram. Abeiraste-te deles e, contudo, passaste adiante; é coisa que te não perdoam.
Elevaste-te acima deles; mas quanto mais alto sobes, tanto mais pequeno te vêm os olhos da inveja. E ninguém é tão odiado como o que voa.
“Como quereríeis ser justo para comigo! — assim é que deves falar. — Eu elejo para mim a vossa injustiça, como lote que me está destinado”.
Injustiça e baixeza é o que eles arrojam ao solitário; mas, meu irmão, se queres ser uma estrela, nem por isso os hás de iluminar menos.
E livra-te dos bons e dos justos! Agrada-lhes crucificar os que invejam a sua própria virtude: odeiam o solitário.
E livra-te ainda assim da santa simplicidade! A seus olhos não é santo o que é simples, e apraz-lhe brincar com fogo... das fogueiras.
E livra-te também dos impulsos do teu amor! O solitário estende depressa demais a mão a quem encontra!
Há pessoas a quem não deves dar a mão, mas tão somente a pata, e além disso desejo que a tua pata tenha garras.
O pior inimigo, todavia, que podes encontrar, és tu mesmo; lança-te a ti próprio nas cavernas e nos bosques.
Solitário, tu segues o caminho que te conduz a ti mesmo! E o teu caminho passa por diante de ti e dos teus sete demônios.
Serás herege para ti mesmo, serás feiticeiro, adivinho, doido, incrédulo, ímpio e malvado.
É mister que queiras consumir-te na tua própria chama. Como quererias renovar-te sem primeiro te reduzires a cinzas?
Solitário, tu segues o caminho do criador: queres tirar um deus dos teus sete demônios!
Solitário, tu segues o caminho do amante: amas-te a ti mesmo, e por isso te desprezas, como só desprezam os amantes.
O amante quer criar porque despreza! Que saberia do amor aquele que não devesse menosprezar justamente o que amava?
Vai-te para o isolamento, meu irmão, com o teu amor e com a tua criação, e tarde será que a justiça te siga claudicando.
Vai-te para o isolamento com as suas lágrimas, meu irmão. Eu amo o que quer criar qualquer coisa superior a si mesmo e dessa arte sucumbe”.
(...)

[Friedrich Nietzsche, meu mestre.]

segunda-feira, agosto 04, 2008

Friedrich Nietzsche



• Para suportar a minha seriedade e a minha paixão é preciso ser íntegro nas coisas de espírito até às últimas consequências ... Necessária é também uma inclinação para enfrentar questões que hoje ninguém se atreve a elucidar; inclinação para o proibido; predestinação para o labirinto. É preciso ter uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até hoje permanecem mudas...

segunda-feira, julho 28, 2008

Friedrich Nietzsche

"Conheço muito bem as qualidades que devo ter para que alguém me compreenda, aquelas que necessariamente o forçam a compreender-me. Para suportar a minha seriedade e a minha paixão é preciso ser íntegro nas coisas de espírito até às últimas consequências; estar acostumado a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo atual da política e do egoísmo dos povos; e, finalmente, ter-se tornado indiferente e jamais perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade...
Necessária é também uma inclinação para enfrentar questões que hoje ninguém se atreve a elucidar; inclinação para
o proibido; predestinação para o labirinto. É preciso que tenham uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até hoje permanecem mudas. ..."

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Friedrich Nietzsche

"Eu odeio, no fundo, toda a moral que diz: «Não faças isto, não faças aquilo. Renuncia. Domina-te...». Gosto, pelo contrário, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refazê-la, a pensar nela de manhã à noite, a sonhar com ela durante a noite, e a não ter jamais outra preocupação que não seja fazê-la bem, tão bem quanto for capaz entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupações que não têm nada a ver com esta vida: vê-se sem ódio nem repugnância desaparecer hoje isto, amanhã aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da árvore; ou mesmo nem sequer se dá por isso, de tal modo o objectivo absorve o olhar, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, não se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. «É a nossa atividade que deve determinar o que temos de abandonar; é atuando que deixaremos», eis o que amo, eis o meu próprio placitum! Mas eu não quero trabalhar para me empobrecer mantendo os olhos abertos, não quero essas virtudes negativas que têm por essência a negação e a renúncia."

sábado, novembro 03, 2007

F. Nietzsche

Estou arrogante demais para considerar que alguém possa me amar, isto é, o amor requer a pré-condição de que a pessoa saiba quem eu sou. Tampouco acredito que eu vá amar alguém. Isto iria exigir - assombro dos assombros! - encontrar alguém do
mesmo vulto que eu. Não esqueça que eu desprezo, tanto quanto sinto piedade, seres como Richard Wagner ou A. Schopenhauer, e que acho o fundador do cristianismo
superficial comparado a mim; eu os amei todos enquanto não tinha entendido o que é o ser humano é.

Isto me afeta como um dos enigmas que pensei um dia - Como é possível que estejamos unidos pelo sangue? O que quer que tenha me ocupado, preocupado, ou elevado nunca
trouxe-me um co-sabedor ou amigo! É uma pena que não haja nenhum Deus, porque existiria ao menos um sabedor - Enquanto eu estiver saudável, mantenho bom-humor suficiente para tocar minha função e me esconder do mundo sob esta função: por
ora professor na Basiléia. Infelizmente, tenho estado muito doente e odiaria, inacreditavelmente, as pessoas que eu conheci, incluindo eu mesmo.

Nietzsche
Nice, meio de março de 1885:
Rascunho de carta a Elisabeth Nietzsche

F. Nietzsche

"Tudo vai, tudo volta, eternamente gira a roda do ser. Tudo morre, tudo refloresce,
eternamente transcorre o ano do ser. Tudo se desfaz, tudo é refeito, eternamente constrói-se a mesma casa do ser. Tudo se separa, tudo volta a se encontrar, eternamente fiel a si mesmo permanece o anel do ser.Em cada instante começa o ser, em torno de todo o "aqui" rola a bola "acolá ". O meio está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade."

(Nietzsche - Assim Falava Zarastrusta)

quinta-feira, setembro 13, 2007

Fragmentos I - ´Assim Falou Zaratustra` - F. Nietzsche

´Quem julgou compreende-lo, equivocou-se a seu respeito; quem não o compreendeu, julgou-o equivocado.´

´É difícil viver com os homens, uma vez que é tão difícil guardar silêncio.
E aquele com quem somos mais injustos não é o que nos é antipático, mas aquele com quem nos não importamos.
Se tens, contudo, um amigo que sofre, sê um asilo para o seu sofrimento, mas até certo ponto um leito muito duro, um leito de campanha; assim ser-lhes-ás mais útil.
E se um amigo te faz mal, diz-lhe: “Perdoo-te o mal que me fizeste; mas se o houvesses feito a ti, como poderia eu perdoar-to?”
Assim fala todo o amor grande: sobrepuja até o perdão e a piedade.´


“É noite; agora eleva-se mais a voz das fontes. E a minha alma é também uma fonte.
É noite; agora despertam todos os cantos dos amantes. E a minha alma é também um canto de amante.
Há qualquer coisa em mim não aplicada nem aplicável, que quer elevar a voz. Há em mim um anelo de amor que fala a linguagem do amor.
Eu sou luz. Ah! se fosse noite! Mas é esta a minha soledade: ver-me rodeado de luz.
Ah! se eu fosse sombrio e noturno! Como sorveria os seios da luz!
E também vos bendiria a vós, estrelinhas que brilhais lá em cima como pirilampos! E seria venturoso com vossos mimos de luz.
Eu, porém, vivo da minha própria luz, absorvo em mim mesmo as chamas que de mim brotam.
Eu não conheço o prazer de receber, e freqüentemente tenho sonhado que roubar deve ser ainda maior deleite do que receber.´


Amar e desaparecer: são coisas que andam a par há eternidades. Querer amar é também estar pronto a morrer. Assim vos falo eu, covardes!

´Entre mim e eles interpuseram todas as fraquezas e todas as faltas dos homens: “andar falso” eis como chamam a isto nas suas casas.
Eu, porém, apesar de tudo, ando sempre por cima da cabeça deles com os meus pensamentos; e se quisesse andar com os meus próprios defeitos, ainda assim andaria sobre eles e sobre as suas cabeças.
Que os homens não são iguais: assim fala a justiça. E o que eu quero não poderiam eles querer!”


“Eu sou hoje e de antes — disse — mas em mim há qualquer coisa que é amanhã, de depois de amanhã e do futuro.
Estou enfastiado dos poetas, dos antigos e dos novos: para mim todos são superficiais, todos são mares esgotados.´

quarta-feira, agosto 22, 2007

F. Nietzsche

''... livrai-vos de ser injustos com os solitários.
Como poderia um solitário esquecer? Como poderia devolver?
Um solitário é como um poço profundo.
É fácil lançar nele uma pedra; mas se a pedra vai ao fundo quem se atreverá a tirá-la?
Livrai-vos de ofender o solitário; mas se o ofendestes então, matai-o também!”

F. Nietzsche

(...)
Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.

Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é vontade de extinção e uma seta do desejo.

Amo o que não reserva para si uma gota do seu espírito, mas que quer ser inteiramente o espírito da sua virtude, porque assim atravessa a ponte como espírito.

Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e deixar de viver.

Amo o que não quer ter demasiadas virtudes. Uma virtude é mais virtude do que duas, porque é mais um nó a que se aferra o destino.

Amo o que prodigaliza a sua alma, o que não quer receber agradecimentos nem restitui, porque dá sempre e se não quer preservar.

Amo o que se envergonha de ver cair o dado a seu favor e que pergunta ao ver tal: “Serei um jogador fraudulento?” porque quer submergir-se.

Amo o que solta palavras de ouro perante as suas obras e cumpre sempre com usura o que promete, porque quer perecer.

Amo o que justifica os vindouros e redime os passados, porque quer que o combatam os presentes.

Amo aquele cuja alma é profunda, mesmo na ferida, e ao que pode aniquilar um leve acidente, porque assim de bom grado passará a ponte.

Amo aquele cuja alma transborda, a ponto de se esquecer de si mesmo e quanto esteja nele, porque assim todas as coisas se farão para sua ruína.

Amo o que tem o espírito e o coração livres, porque assim a sua cabeça apenas serve de entranhas ao seu coração, mas o seu coração, o leva a sucumbir.

Amo todos os que são como gotas pesadas que caem uma a uma da sombria nuvem suspensa sobre os homens, anunciam o relâmpago próximo e desaparecem como anunciadores.

Vede: eu sou um anúncio do raio e uma pesada gota procedente da nuvem ...

(...)

F. Nietzsche

(...)
Se tendes, porém, um inimigo, não lhe devolvais bem por mal porque se sentiria humilhado; demonstrai-lhe, pelo contrário, que vos fez um bem.
E a ter que humilhar preferi encolerizar-vos. E quando se vos amaldiçoe, não me agrada que vós abençoeis. Amaldiçoai também.
E se vos fizeram uma grande injustiça, fazei vós imediatamente cinco injustiças pequenas.
Horroriza ver o que por si só sofre o peso da injustiça.
Já sabeis isto? Injustiça repartida é semi-direito.
E aquele que pode trazer a injustiça deve levá-la.
Uma pequena vingança é mais humana do que nenhuma. E se o castigo não é somente um direito e uma honra para o transgressor, eu não quero o vosso castigo.

É mais nobre condenarmos do que teimar, mormente quando temos razão. Somente é preciso ser rico bastante para isso.
Não me agrada a vossa fria injustiça: nos olhos dos vossos juizes transparece sempre o olhar do verdugo e seu gelado cutelo.
Dizei-me: onde se encontra a justiça que é amor com olhos perspicazes?
Inventai-me, pois, o amor que suporta, não só todos os castigos, mas também todas as faltas.
Inventai-me a justiça que absolve todos, exceto aquele que julga!
Quereis ouvir mais? No que quer ser verdadeiramente justo, a mentira muda-se em filantropia.
Mas, como poderia eu ser verdadeiramente justo? Como poderia dar a cada um o seu?
Basta-me isto: eu dou a cada um o meu.

(...)

F. Nietzsche

(...)
Ainda hoje te atormenta a multidão; ainda conservas o teu valor e as tuas esperanças todas.
Um dia, contudo, te fatigará a soledade, se abaterá o teu orgulho e cerrarás os dentes. Um dia clamarás: “Estou só!”
Chegará um dia em que já não vejas a tua altura, e em que a tua baixeza esteja demasiado perto de ti. A tua própria sublimidade te amendrontará como um fantasma. Um dia gritarás: “Tudo é falso!”
Há sentimentos que querem matar o solitário. Não o conseguem? Pois eles que morram! Mas, serás tu capaz de ser assassino?
Meu irmão, já conheces a palavra “desprezo”? E o tormento da justiça de ser justo para com os que te menosprezam?
Obrigas muitos a mudarem de opinião a teu respeito; por isso te consideram. Abeiraste-te deles e, contudo, passaste adiante; é coisa que te não perdoam.
Elevaste-te acima deles; mas quanto mais alto sobes, tanto mais pequeno te vêm os olhos da inveja. E ninguém é tão odiado como o que voa.
“Como quereríeis ser justo para comigo! — assim é que deves falar. — Eu elejo para mim a vossa injustiça, como lote que me está destinado”.
Injustiça e baixeza é o que eles arrojam ao solitário; mas, meu irmão, se queres ser uma estrela, nem por isso os hás de iluminar menos.
E livra-te dos bons e dos justos! Agrada-lhes crucificar os que invejam a sua própria virtude: odeiam o solitário.
E livra-te ainda assim da santa simplicidade! A seus olhos não é santo o que é simples, e apraz-lhe brincar com fogo... das fogueiras.
E livra-te também dos impulsos do teu amor! O solitário estende depressa demais a mão a quem encontra!
Há homens a quem não deves dar a mão, mas tão somente a pata, e além disso quero que a tua pata tenha garras.
O pior inimigo, todavia, que podes encontrar, és tu mesmo; lança-te a ti próprio nas cavernas e nos bosques.
Solitário, tu segues o caminho que te conduz a ti mesmo! E o teu caminho passa por diante de ti e dos teus sete demônios.
Serás herege para ti mesmo, serás feiticeiro, adivinho, doido, incrédulo, ímpio e malvado.
É mister que queiras consumir-te na tua própria chama. Como quererias renovar-te sem primeiro te reduzires a cinzas?
Solitário, tu segues o caminho do criador: queres tirar um deus dos teus sete demônios!
Solitário, tu segues o caminho do amante: amas-te a ti mesmo, e por isso te desprezas, como só desprezam os amantes.
O amante quer criar porque despreza! Que saberia do amor aquele que não devesse menosprezar justamente o que amava?
Vai-te para o isolamento, meu irmão, com o teu amor e com a tua criação, e tarde será que a justiça te siga claudicando.
Vai-te para o isolamento com as minhas lágrimas, meu irmão. Eu amo o que quer criar qualquer coisa superior a si mesmo e dessa arte sucumbe”.

(...)

sexta-feira, agosto 03, 2007

F. Nietzsche

- Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia, disse Nietzche.

- Como assim, não oferecer companhia?

- Por não prezarem as coisas que prezo! Às vezes enxergo tão profudamente a vida que, de repente, olho ao redor e vejo que ninguém me acompanhou e que meu único companheiro é o tempo.


Quando Nietzsche Chorou

domingo, julho 22, 2007

F. Nietzsche

" Houve uma época em nossas vidas em que estávamos tão próximos, que nada parecia obstruir nossa amizade e fraternidade e apenas uma pequena ponte nos separava. Quando você ia subir na ponte, eu lhe perguntei: Você quer atravessar a ponte até mim ?
Imediatamente você ficou deixou de querê-lo e, quando repeti a pergunta você ficou silente. Desde então, montanhas, rios torrenciais e o que quer que separe e aliene interpuseram-se entre nós e, mesmo se quiséssemos nos reunir, não conseguiríamos."


_ Quando Nietzsche chorou