domingo, junho 01, 2008

Martha Medeiros

Nenhum de Nós


Eu enxergo o que você sente
Mas você responde com a boca, não
Sua boca diz que não
Mas quando não diz nada
Me beija assim
Depois do beijo olho de novo em seus olhos
E vejo o sim
Seus olhos dizem sim

Você retira a mão do meu rosto
Me pede perdão, não
Me beija de novo como quem suplica
O silêncio que diz sim
Te abraço então, agora é o teu corpo
Que diz: não
Teu corpo diz que não

Você pede que eu volte
E nessas idas e vindas
O amor enfraquece
Até o fim
Enfraquece até o fim


Eu enxergo o que você sente
Mas você responde com a boca, não
Sua boca diz que não
Mas quando não diz nada
Me beija assim
Depois do beijo olho de novo em seus olhos
E vejo o sim
Seus olhos dizem sim


Você pede que eu volte
E nessas idas e vindas
O amor enfraquece
Até o fim Enfraquece até o fim
E nessas idas e vindas
O amor enfraquece
Você pede que eu volte


E nessas idas e vindas
O amor enfraquece
Até o fim Enfraquece
até o fim Enfraquece até o fim
Enfraquece até...

Gilka Machado

O RETRATO FIEL


Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!

Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.

Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;

naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.

Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.

Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.

Fernando Pessoa

Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.

Clarice Lispector

"Todas as manhãs ela deixa os sonhos na cama,
acorda e põe sua roupa de viver.
Todas as manhãs ela caminha vagarosamente para pegar o ônibus que a levará para lugar nenhum, para ver ninguém.
E todas as manhãs ela imagina como serão as tardes,
Já sabendo a resposta, finge ser feliz todas as manhãs.
E todas as manhãs ela espera pela noite,
espera arduamente voltar ao seu quarto, e ser triste.
É quando ela sente que está assim, completa.
Completamente triste , mas completa.
E quando ela tira a roupa e põe todo o seu corpo em baixo das cobertas quentes e sente que começa a sonhar, é quando ela sorri. Assim, pra ninguém. Mas pra ela mesma. E viver vale a pena."

segunda-feira, abril 07, 2008

cora coralina

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

Renault

Balada da Irremediável Tristeza

Eu hoje estou inabitável...
Não sei por quê,
levantei com o pé esquerdo:
o meu primeiro cigarro amargou
como uma colherada de fel;
a tristeza de vários corações bem tristes
veio, sem quê, nem por quê,
encher meu coração vazio...vazio...
Eu hoje estou inabitável...

A vida está doendo...doendo...
A vida está toda atrapalhada...
Estou sozinho numa estrada
fazendo a pé um raid impossível.

Ah! se eu pudesse me embebedar
e cambalear...cambalear...
cair, e acordar desta tristeza
que ninguém, ninguém sabe...
Todo mundo vai rir destes meus versos,
mas jurarei por Deus, se for preciso:
eu hoje estou inabitável...

Robert Frost

"Fire and Ice.
Some say the world will end in fire, Some say in ice. From what I’ve tasted of desire I hold with those who favor fire. But if it had to perish twice, I think I know enough of hate To say that for destruction ice Is also great And would suffice."

Fogo e Gelo.
O mundo findará em fogo, ouço aqui,
Em gelo, ouço ali.
Conheço bem o desejo, logo Sou a favor do fim em fogo.
Mas se houvesse dois finais,
Creio que sei do ódio a ponto De afirmar: ao destruir, o gelo Funciona bem; Não fica aquém.

Anna D´castro

Sou várias, em várias de mim...
Sei, porque eu me conheço
Mas nem sempre reconheço
Porque terei de ser assim.

Tem horas que sou como rocha
Uma matéria impenetrável...
Outras, fico tão frágil
Toda eu sou maleável!

Em permanente conflito
Vivo nesse labirinto
Às vezes, solto meu grito
Quando não sou o que sinto.

Mas quando fico nervosa
Mostro como estou carente
Tal como pétala de rosa
Em mão inconsequente.

Não quero mostrar minha dor
Fica presa na garganta
Prefiro falar de amor
Dar leveza e graça tanta.

E nessas várias de mim
Tenho a alma como o vento:
- eterna, rebelde ou branda -
E a chama que crepita sem fim...
É a única que me comanda!

Pablo Neruda

De mim e de minhas asas


Hoje falo de asas,
Da vontade de voar.
Falo também de um sonho,
De outros rumos tomar.

Não quero asas como ícaro,
Muito menos ao sol chegar.
Não me iludo da fama aos píncaros,
Nem desejo mesmo voar.

Falo agora das asas da liberdade
Perdida por cada um de nós.
Quando vivemos a vida escolhida,
Por não sermos mais sós.

Somos seres sociais,
Ao vizinho devemos razões.
Deixamos de ser animais
E perdemos nossas opções.

Não quero asas pra voar.
Tenho pernas que me levam.
A elas tenho presos grilhões,
Que minha liberdade me negam.

Parentes, tarefas, compromissos,
Teto e razões do sistema,
Que me prendem ao social
E de liberdade diz-se ser lema.

Liberdade é ir e vir,
É dizer o que se pensa.
Liberdade é poder fugir,
Não ter credo e não ter crença.

Liberdade é poder crer,
Ou não crer no que quiser.
Relacionar-se sexualmente,
Na opção que lhe convier.

Liberdade é dar respeito
E respeitar ao seu igual.
Liberdade é dar o direito
E recebe-lo ao natural.

Use asas voe alto.
Use pernas e caminhe.
Cante, grite, encene um ato,
Mesmo até que desafine.
Só não esqueça de uma coisa,
Que pra ser livre é importante.
Teu caminho sempre pára,
Se houver outro adiante.

Você é livre pra ajudar,
Razoar e dividir.
Liberdade é união
De algum mundo construir.

Reclamei do social
E agora descobri.
De que adianta se ser livre,
Se não tenho com quem dividir?

Sei então que liberdade,
É só questão de direito.
Respeitar ao seu irmão
E dele obter respeito.

Tem valor então a lenda,
De uma asa somos pássaros.
Para termos liberdade,
Precisamos dar os braços.

Liberdade, liberdade,
Abre as asas sobre nós
Liberdade não existe,
Se estivermos sós... se vivermos sós!
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dele é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dele que não sei como o desejar.