sexta-feira, setembro 19, 2008

Eu sentei e chorei

"Conta a lenda que tudo o que cai nas águas deste rio se transforma nas pedras do seu leito. Ah, quem me dera que eu pudesse arrancar o coração do meu peito e atirá-lo na correnteza, e então não haveria mais dor, nem saudade, nem lembranças.

Nas margens do Rio Piedra eu sentei e chorei. O frio do Inverno fez com que eu sentisse as lágrimas na face, e elas misturaram-se com as águas geladas que corriam diante de mim...todas estas águas se confundem com o mar.

Que as minhas lágrimas corram assim para bem longe, e então eu esquecerei o Rio Piedra, o mosteiro...os caminhos que percorremos juntos. Eu esquecerei as estradas, as montanhas e os campos dos meus sonhos - sonhos que eram meus, e que eu não conhecia.

Eu lembro-me do meu instante mágico, daquele momento em que um "sim" e um "não" podem mudar toda a nossa existência. Parece ter acontecido há tanto tempo e, no entanto, faz apenas uma semana que reencontrei o meu amado e o perdi.

Nas margens do Rio Piedra escrevi esta história. As mãos ficavam geladas, as pernas entorpecidas pela posição e eu precisava parar a todo o instante.

- Procure viver. Lembrar é para os mais velhos - dizia ele.

Talvez o amor nos faça envelhecer antes da hora e nos torne jovens quando a juventude já passou. Mas como não recordar aqueles momentos? Por isso escrevia, para transformar a tristeza em saudade, a solidão em lembranças. Para que, quando acabasse de contar a mim mesma esta história, a pudesse lançar no Piedra - assim me tinha dito a mulher que me acolheu. Para que então - as águas pudessem apagar o que o fogo escreveu.

Todas as histórias de amor são iguais."


(Paulo Coelho - "Nas margens do Rio Piedra")

Paulo Coelho

(...) "No dia 11 de Novembro, Verónica decidiu que havia (afinal!) chegado o momento de se matar. E não se estava a matar porque era uma mulher triste, amarga, vivendo em constante depressão... Haviam duas razões:
A primeira é que tudo na sua vida era igual, e - uma vez passada a juventude - seria a decadência. A segunda, tudo o que se estava a passar no mundo estava errado e ela não tinha como reparar isso.

Quanto tempo me resta?
- Repetiu Verônica, enquanto a enfermeira dava a injecção.
- 24 hs. Talvez menos.
Ela baixou os olhos, e mordeu os lábios. Mas manteve o controle.
- Quero pedir dois favores. O primeiro, que me dê um remédio... de modo que eu possa ficar acordada, e aproveitar cada minuto que restar da minha vida. Eu estou com muito sono, mas não quero mais dormir, tenho muito que fazer - coisas que sempre deixei para o futuro, quando pensava que a vida era eterna. Coisas pelas quais perdi o interesse, quando passei a acreditar que a vida não valia a pena.
- Qual o seu segundo pedido?
- Sair daqui, e morrer lá fora. Preciso de subir ao castelo de Lubljana, que sempre esteve ali, e nunca tive a curiosidade de vê-lo de perto... quero andar na neve sem casaco, sentindo o frio externo - eu, que sempre estive bem agasalhada, com medo de apanhar uma constipação.

Enfim, Dr. Igor, eu preciso de apanhar chuva no rosto, sorrir para os homens que me interessam, aceitar todos os cafés para os quais me convidem.

Tenho que beijar a minha mãe, dizer que a amo, chorar no seu colo - sem vergonha de mostrar os meus sentimentos, porque eles sempre existiram, e eu escondi-os...

Quero entregar-me a um homem, á cidade, à vida e, finalmente, à morte."
(...)

(trecho de "veronika decide morrer" - paulo coelho)

"Não há coincidências" - trecho

(...) Tudo corria sobre rodas até à entrada do Victor Lopes. O Victor Lopes tinha a mania de que era engatatão e fez o circuito das meninas da redacção até empancar em mim. Nem alto nem baixo, tinha o charme barato típico dos gajos que sobem a pulso e não olham a meios para atingir os fins. O maior problema não foi dar-lhe uma tampa, foi ter de lhe dar várias. A primeira vez que deu o ar da sua graça estávamos na cantina e resolveu tecer comentários sobre as minhas pernas.

Expliquei-lhe com calma que não achava a conversa apropriada, ele pediu desculpa e calou-se. Nessa mesma noite, depois do telejornal acabar, descemos no mesmo elevador até à garagem e resolveu adoptar a táctica do ataque frontal. Encostou-se a mim, estava eu a enfiar a chave na fechadura para abrir o carro e começou a arfar e a dizer coisas sem nexo. Não há dúvida que os homens entre os quarenta e os cinquenta ou apuram ou abandalham. Como este não tinha como apurar, abandalhou. Tive que lhe dar um encontrão e a partir daí as coisas foram-se progressivamente complicando.

O tipo nunca mais me largou. Pedia-me para fazer peças que ele próprio sabia que não iriam para o ar, criticava sistematicamente o meu trabalho em alto e bom som para me vexar diante de toda a redacção e fazia tudo para me retirar a pouca confiança que tinha como jornalista.

O José António tentou várias vezes proteger-me, mas o Victor estava decidido a acabar comigo. Quando o José António foi para a concorrência com um contrato milionário, fiquei sem apoio.

Há uma amiga minha jornalista que diz que nas redacções dos canais de televisão anda metade a fo... com a outra metade e quem não fo... ninguém está fo... Era o que eu estava. O tipo ia acabar comigo de qualquer maneira.

Clarice Lispector

Sempre quis jogar alto, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros ou de influência de pessoas, uma coisa muito minha que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta frequência. Disso tudo restaram nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Vinicius de Moraes

Se tu queres que eu não chore mais
Diga ao tempo que não passe mais
Chora o tempo o mesmo pranto meu
Ele e eu, tanto
Que só para não te entristecer
Que fazer, canto
Canto para que te lembres
Quando eu me for

Deixa-me chorar assim
Porque eu te amo
Dói a vida
Tanto em mim
Porque eu te amo
Beija até o fim
As minhas lágrimas de dor
Porque eu te amo, além do amor!

sexta-feira, setembro 12, 2008

Quebrar copos

No livro “Na margem do Rio Piedra eu sentei e chorei”, Pilar pede a seu amado que quebre um copo, enquanto jantam num restaurante.

“Sim, quebrar um copo. Um gesto aparentemente simples, mas que envolve pavores que nunca compreenderemos direito. É o proibido. Copos não se quebram de propósito; quando entramos em restaurantes ou em nossas casas, tomamos cuidado para que copos não fiquem na beira da mesa. Morremos de medo de quebrar copos”.

“Entretanto, quando sem querer derrubamos um, vemos que não é tão grave assim. O garçom diz ‘não tem importância’, e ‘nunca vi um copo quebrado ser incluído na conta do restaurante’”.

“Quebrar copos faz parte da vida; faça isto agora, mesmo que a gente tenha que pagar depois. Às vezes, um gesto bobo nos liberta de preconceitos malditos, da mania de explicar tudo, de só fazer aquilo que os outros aprovam”.

Eu não existo sem você

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você

ESTAMOS COM FOME DE AMOR

Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão".
Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas e saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.
Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances sexuais dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormirem abraçados, sabe essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega? Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção.

Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós. Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos ORKUT, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!". Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.
Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa.

Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega. Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso à dois. Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele?

Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é "out", que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida.

Antes idiota que infeliz!

quarta-feira, setembro 10, 2008

Mande Deus para o Museu!

"Quando vejo um auto-suficiente,
Postado a minha frente,
Despejando sapiência,
Eu tenho um ataque de riso.
O sujeito pensa que sabe tudo,
Que é gênio, intelectual,
E, na verdade, é um ignorante letrado,
Um analfabeto das coisas divinas.
É um cara que só tem dez por cento
Do seu cérebro em funcionamento.
E com dez por cento,
Se julga Deus,
Apaga Deus,
Ri de Deus.
O criador não acertou em nada
E o sabichão é que sabe tudo.
Ele, o bípede-terreno com seus dez por cento
Entende profundamente da matéria e do espírito.
Mistério não há, tudo é claro,
Claro com seus dez por cento de cérebro
E cem por cento de auto suficiência.
Gênio!
Intelectual!
Você sabe tudo,
Me diz uma coisa apenas:
Por que você primeiro não estuda e conserta
O que há de errado em sua própria vida?
Vida cheia de infidelidade,
De titubeios,
De preconceitos,
De vai-não-vai,
De medo,
De recalque,
De complexo.
Depois de consertar tudo sem Evangelho,
Usando só seus ridículos dez por cento,
Pegue Deus, coloque-o num frasco
E mande para o museu mais próximo!!! "

À você.

Do Erótico ao Platônico

Eu queria recostar-me em seu peito
E adormecer como no travesseiro.
Eu queria acordar em seus braços
E transitar pelo teu corpo.

Eu queria perder-me no agora
E encontrar-me só em você.
Eu queria sussurar em teu ouvido
E ouvir o eco no brilho dos olhos seus.

Eu queria provar seus lábios
E alimentar-me com seus desejos.
Eu queria parar tudo,
Ficar diante de vc, vazia de problemas
E cheia de inocência.

Eu queria que fôssemos duas estátuas
Perdidas em um jardim sem importância,
Uma diante da outra, olhando, olhando...
Duas estátuas sem ninguám para recriminar.
Olhando,olhando...
Vivendo o milagre do amor platônico!